sábado, 19 de fevereiro de 2011

Prometheus Nostos



Pensamento mítico é uma “verdade” que não obedece à lógica empírica nem científica, portanto é uma verdade "intuitiva" que não necessita de provas, porque está muito mais ligado “magia”, ao desejo e ao querer que as coisas aconteçam de um determinado modo. O mito tranqüiliza o homem dentro do mundo natural e estabelece modelos de atividades humanas. No ocidente o pensamento mítico começou a ser substituído por uma forma de pensar baseada na “razão” ou uma forma de pensar que se estrutura a partir da hipótese, analise , experimentação além da dialética dual que dá sentido para o mundo ( dia X noite, claro X escuro, vidaX morte...)
É difícil "racionalmente" compreender a dimensão dessa forma de pensamento.
Pensando “racionalmente” quanto mais tentamos nos aproximar do mito mais ele nos escapa.
"Prometheus Nostos"E uma encenação que busca se apropriar desse universo mitológico e se transformar no contato com o público. Aliás, essa é uma das qualidades do espetáculo protótipo: O risco. O risco mora em se mostrar ao publico um material teatral que está inacabado e que se transforma na apropriação do material mitológico e no contato com espectador. Risco de mostrar um material frágil e sem potência. A forma que a cia escolheu para este processo foi:
Primeiro: Meia hora antes de o espetáculo começar onde o publico entra no espaço da cena, que ainda não esta pronta para a apresentação, durante 10 minutos os atores contam histórias se pararam para entrar em cena. A segunda forma: durante o espetáculo espaços são delimitados por cortinas, e o público é convidado a mudar de lugar. Talvez para mostrar que uma mesma narrativa pode ser vista de várias formas.Quebrando assim com a idéia de verdade de um acontecimento, sem comprometer a narrativa principal da peça, o mito de prometeu. Nesses espaços da narrativa acontecem uma polifonia de vozes criando um rumor de estórias , uma colcha de retalhos que não tem uma origem, mas sim vem de todos os lugares.
A fragilidade da encenação acontece na impossibilidade de se compreender uma narrativa sem se posicionar, sem que essa narrativa seja uma forma de compreender ou lidar com angustias do nosso tempo. Pq essa é a dimensão da narrativa mítica que conseguimos compreender, pois as outras dimensões escapam ao modo de pensar e se relacionar com o mundo que nos ocidentais criamos ao longo dos séculos. Se olharmos pro mito só como uma narrativa fantástica, ou algo místico a gente sem perceber acaba caindo num terreno de melodramas ou em um universo de valores cristãos como acontece na encenação. Afastando-nos assim da dimensão poderosa e potente de um mito.

Prometheus Nostos


  A idéia de espetáculo em  processo de criação constante parece ser precedida pelo interesse em um material sempre vivo e em transformação. A proposta da Cia Teatro Balagan é experimentar o "espetáculo protótipo" Prometheus Nostos  nas sedes de sete diferentes grupos de São Paulo. Nos dias 18 e 19/02/2011 estiveram no Sacolão das Artes, da Brava Cia.
 O espetáculo parte de diversos textos sobre o mito de Prometeu, construindo uma dramaturgia polifônica e não linear. O espaço vai sendo modificado por quatro cortinas, ficando o público muitas vezes dividido em dois e assistindo a cenas diferentes, sem prejuízo ao entendimento da narrativa. Somos avisados antes que temos a liberdade de transitar  entre as cenas, mas só as crianças (e eram muitas) se sentiram à vontade para isso. A musicalidade da peça se mostra frágil, pretensiosa. A presença de atores-narradores é potente, mas o ritmo estabelecido se mostra monótono e as mudanças no espaço não parecem necessárias.
  É inevitável formular algumas questões que vão, todas, na mesma direção: Até que ponto esse material apresentado afeta e é afetado pelo público? Até que ponto a Cia está disponível para isso? Existe troca real? De que forma isso se reflete no processo? Até que ponto será de fato esse um processo vivo? Apesar da escolha quanto ao espaço (e também das explicações da diretora no ínicio) sugerir uma relação mais próxima com o público, a qualidade dessa relação se mostrou não muito diferente do que seria se o espetáculo fosse encenado no palco italiano.

O próximo espaço a ser visitado pelo espetáculo é o do Grupo Pombas Urbanas, no mês de março.
http://www.ciateatrobalagan.com.br/site/flash/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quando não resta nada a dizer




1- Os nomes dos diretores (que também dá nome a Cia) são repetidos 12 vezes no programa do espetáculo.

2- A Barbara Heliodora traduziu os três textos curtos do Beckett (uma tradução arrojada, como diz o programa) Mas a peça quase não tem fala. O que a Barbara Heliodora traduziu? As ações? É possível. Qual a necessidade de uma tradução “arrojada” para ações?

3- “A montagem projeta em cena os desejos dos espectadores” Quais desejos? O tédio? É característica do Beckett os silêncios, as pausas longas, as ações fragmentadas, o jogo com as palavras. Mas, além disso, os diretores criaram longas repetições performáticas com água, baldes e homens usando ternos. Dilatando o tempo e provocando a sensação de “isso não vai acabar nunca?”
4- A montagem afirma a atualidade do Beckett. Que atualidade? Pensem comigo: Um texto atual pode ser aquele que mesmo com o passar dos anos dá a possibilidade de você criar sentidos, poéticas... Ou uma montagem “atual” é aquela que dialoga com questões, problemas e situações de certo lugar ou momento histórico. Tirando os objetos de cena super modernosos, e as performances (que são super clichê – Afinal quem nunca pegou um balde, encheu de água e usou como metáfora para um rio, um mar, uma banheira, ou para simbolizar suicídio , ehm?)

5- No programa a expressão: Respiração embolada. R E S P I R A Ç Ã OE M B O L A D A . Como é uma respiração embolada? Eu fiquei muito curioso para saber.
6- Li numa crítica que diz que uma das qualidades da peça é um tratamento levemente cômico do Beckett, além da beleza plástica . De fato essa é uma qualidade da montagem. Ah! Outra qualidade da montagem é a performance final usando baldes cheios de água, repente e batuques . Tudo sincronizado, e muito empolgante.

7- A dramaturgia da encenação são os três textos do Beckett costurados por performances criadas a partir de algumas palavras-chave na obra do Beckett como silêncio, respiração... As performances se propõem a um radicalismo didático e entediante. Jhon Cage em 1950 consegiu ir mais longe se propondo quase a mesma coisa que “ resta pouco a dizer”. Veja só:

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O meu drama não se realiza mais blá blá blá e mais além



Cada pessoa do público recebe uma chave num cordão vermelho (que serve de ingresso), ainda na frente do teatro Sacolão das artes no Parque Santo Antônio - sacolão hortifrutigranjeiro desativado que é sede da Brava Cia. Somos convidados por uma atriz com peruca loira [ figura exótica típica do teatro contemporâneo ] a dar uma volta pelo quarteirão: "Se tá comigo cola, mas bem juntinho - que isso aqui não é teatro de destaque, não quero destaque. Quem saiu de casa achando que ia sentar a bunda no teatro pra ver uma pecinha tá muito enganado". Paramos no portão do estacionamento de uma delegacia, a atriz pede ajuda do público pra colar um cartaz com uma frase de efeito que incita à revolução, uns policiais olham desconfiados. Outros cartazes são colados no trajeto.
Voltamos pro teatro, os três atores se acomodam num cenário apartamento-gaiola pós apocalipse - QG/Aparelho onde covardemente escondidos eles planejam impotentes a revolução. Tudo bastante metafórico. Eles se dirigem uns aos outros pelos seus nomes reais fora de cena: Marcelo, Mariana e Patrícia. Não chega a se formar um conflito, nem historinha, nem personagens. Os três estão ali organizando um discurso a eles comum de forma cênica e poética, usando seus depoimentos pessoais e os textos do Heiner Muller.
O título "QUEM NÃO SABE MAIS QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ PRECISA SE MEXER" parece se referir a uma geração específica, em seu contexto socio-político de utopias, sua desilusão e acomodação posteriores; também a qualquer cidadão diante da dificuldade de se reconhecer como parte-agente integrada a determinada classe social; também como denúncia à alienação; também ao próprio drama teatral que não se realiza mais. E talvez seja um espetáculo importante na medida em que nos provoca a reflexão sobre a necessidade do novo, da investigação de novos lugares possíveis.

PS -
QUEM: Um senhor sentado na mesma fileira que eu
O QUE: estava bastante entediado durante o espetáculo, mas assistiu até o fim
ONDE ESTÁ: no parque Santo Antônio, ele é morador da região
PRECISA SE MEXER?: O fomento (entre outras iniciativas, como o trabalho de resistência da Brava Cia) permite(m) que existam espaços teatrais como este na periferia. Mas o trabalho de "formação de público" é sempre um desafio. O tédio e desinteresse do tal senhor reafirma o que está em cena, a impotência de todo um movimento politizado de teatro de grupo diante das ferramentas de democratização de acesso a cultura pelas quais lutam.

QUEM NÃO SABE MAIS QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ PRECISA SE MEXER
Site da Cia São Jorge: http://www.ciasaojorge.com.br/quem.html

sábado, 18 de dezembro de 2010

Entre(intensões) e contenções: pequena mostra de dança contemporanea




A dança contemporânea não tem ainda resposta fechada para explicar quem “ela” realmente é, exatamente por estar acontecendo no hoje, no agora. Podemos identificar características que compõem obras de dança contemporânea como estrutura não linear, trabalhos não narrativos, multiplicidade de significados, discursos, temáticas, processos e produtos, invenção como reestruturação, referência ao passado, presença da ironia e da paródia, mudanças na configuração do tempo e do espaço, velocidade de criação e informação, uso da tecnologia, descontinuidade, fragmentação e multiplicação de imagens, rejeição a narrativa única, liberdade de criação, nova estrutura de pensamento, sentimento e comportamento artístico e social, entre outras.
Marcela Benvegnu

Toda essa pluralidade que a dança contemporânea levanta um desafio para um crítico charlatão como eu: Acessibilidade da dança contemporânea.Já que esta se constrói a partir de procedimentos plurais, muitas vezes esses procedimentos (como foi mencionado Marcela Benvegnu) muitas vezes não se conectam. Muitas vezes é organizada não para me dar a sensação tranqüilizadora de entendimento, mas sim, são articuladas como camadas que me causa uma experiência sensível por si só, mas também está construída a serviço de um tema.

Escolhi o segundo solo "Entre contenções" por razões afetivas:

O solo tem uma estranheza que é muito interessante. O espaço totalmente vazio, um desenho de luz que cria uma espécie de desvelamento revelando aos poucos as nuance, e as possibilidades que uma partitura de ação simples pode chegar na repetição até a exaustão.

O solo tem um movimento cíclico, uma bela canção que é repetida em volume progressivamente mais auto. Outra coisa que me agrada muito no solo é que o movimento, os gestos não são cadentes e harmônicos, mas também não são mecânicos. Toda a gestualidade está num lugar entre ação física e dança, e várias vezes é desconecto da musica o que potencializa a estranheza dos movimentos.

O que não é uma coisa incomum na dança contemporânea, né?

Pequena mostra de solos: http://www.salacrisantempo.com.br/home/

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Vozes Dissonantes


1 – A Voz oficial:

O espetáculo aborda expressões de filósofos, estetas, políticos, poetas, de figuras como Padre Antônio Vieira se manifestando contra a escravatura, passando por análise do papel de Tiradentes, manifestações de José Bonifácio, idéias de Milton Santos e outros que nos inspiram com sua coragem autoral a criação de novos rumos para uma sociedade ainda tão jovem e plena de futuro. Espetáculo otimista porque acredita na ação, e reflexivo porque vasculha nossos momentos libertários e as vozes que os promulgaram, sempre com vistas em proporcionar fortalecimento de atitudes responsáveis e de transformação.

2- A voz da critica oficial:

A expressão corporal de D.S. é impressionante, cada vez mais impressionante, de tal modo ela se movimenta em “acrobacias” e expressões faciais, chamando a atenção de forma irônica/brincalhona para todos os períodos de nossa formação histórica, lembrando Gregório, Vieira, Castro Alves, o índio, o negro, chegando aos dias atuais. Diga-se que o espetáculo começa com uma leitura de João Cabral.

Em prodigiosos exercícios de contração/descontração, expressão facial, uso das mãos que impressionam mais que um Marcel Marceau, apontando o caminho que pode conduzir ao desespero do não ser pela impossibilidade de entregar-se àquilo que se poderia ser: o dia-a-dia corrido, sem espaço para o diálogo, o amor, a realização pessoal. (realise oficial)

Algumas (vozes) crítica dissonante:

… e Denise Stoklos e o seu corpo. As arquiteturas em movimento. As partituras físicas. A respiração quântica. O gesto elipsoidal antuniano. Seu figurino pretinho básico. O cenário basiquíssimo, preto também, lógico. Sapatinho preto com saltinho. Denise Stoklos e as citações lugar-comum. O xaxado de trilha na parte que cita os Sertões. A luz em foco nela, na cela da prisão de Frei Betto e a mímica das grades. As vociferações contra o capitalismo. O bom mocismo esquerdista. Dom Hélder, Caio Prado, Milton Santos, Gilberto Freyre e, tipo, uma expressão no ar de: “galera eu li, tá?”

A temporada da Denise Stoklos no espaço cênico Ademar Guerra é marcada por alguns problemas de produção, que começa pelo fato do espetáculo não ter programa até a disposição da platéia que parece não em ter que ficar exprimida nas arquibancadas, nem em não ter uma visão privilegiada sentando nas arquibancadas laterais ou tendo uma pilastra bem no meio de uma das arquibancadas.
E a relação com o publico é algo bastante curiosa: O publico é (geralmente) muito carinhoso com a Denise Stoklos, estando sempre disponível para rir de uma expressão facial, ou de uma piada, ou dizer como ela é genial por conseguir fazer de um punhado de citações algo divertido. Teve uma hora que eu pensei: Seria muito mais divertido ir pra aula se meus prof usassem recursos da mímica e do teatro essencial pra apresentar e expor o pensando de um filosofo X . E o rapaz que sentou ao meu lado, que vibrava com cada nova citação, tentava adivinhar quem era o autor e quando acertava vibrava. Ou a mulher atras de mim que achava tudo genial!! Ou a estudante que sentou no chão e cochichava com sua amiga sobre a precisão técnica das ações, a genialidade com que a Denise Stoklos manipula a palavra criando texturas. Ou a primeira cena do espetaculo que é super cansativa ou a visão teatralzinha da ditadura militar, ou a ironia que ela faz com o Ex presidente Fernando henrique Cardoso e a sua famosa frase: "esqueçam o que eu disse"

Ei, alguém precisa dizer a ela que as coisas mudaram, tipo: o cara que tá com a faixa agora só não repetiu “esqueçam o que eu escrevi” porque ele nunca escreveu nada, mas bem que poderia dizer: “esqueçam quem eu fui” .As novidades, Denise, não param por aí. Desculpa, mas eu tenho mais recados do século XXI, já que você insiste em ficar no século passado. Sua peça no máximo vai até Lamarca, né? Aí é fácil brincar de polícia e ladrão, o ladrão usava farda. Quero ver agora, que emboloaram o jogo e trocaram o figurino dos dois lados. ( revista Bacante)

Critica oficial diz:

Denise acredita nisto, que pela arte se pode chegar a uma compreensão dos nossos conflitos, sem atribuir a “forças ocultas” nossa impossibilidade humana de viver em plenitude.Nosso fracasso é a vitória da verdade sobre a não-verdade, do amor sobre a cólera, da união sobre a fragmentação. Sua arte Poe o Brasil lado a lado com outros países, com a vantagem de apontar para a esperança, que renasce em cada um de nós, depois de revê-la. Por Marly de Oliveira - Junho de 2000

E pra terminar, a Denise começou a peça com um “Parabéns pro Brasil, nesse um de abril” e terminou com um “Parabéns pra você [dirigindo-se à platéia ou puxando as palmas pra ela mesma] parabéns pra você! Pra você!”. Tudo bem redondinho, que nem uma chave de ouro de um soneto decassílabo perfeito parnasiano.
(Revista bacante)

Mas uma coisa é fato: dissonante ou assonante (?) difícil não partilhar de uma espécie de comunhão com a Denise stoklos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mary Stuart

Teatro essencial é aquele em que o ator é o autor e diretor e coreografo de si mesmo. Seu instrumento é o corpo. Com o corpo ele desenha o espaço com sua voz ele mostra o afeto do personagem e com o seu afeto, sua memória e sua intuição ele constrói a dramaturgia, ou seja, ele une a voz e o pensamento. Seus temas serão sempre da natureza humana, universais inadiáveis, daí, político. A intenção é que o publico saia do teatro revigorado em suas lutas por liberdade e amor afinal é para isso que estamos aqui. O performer essencial será sempre político não importa a ele nada que na finalidade não signifique: possibilidade de convite ao questionamento, reflexão, ação e transformação. (Denise Stoklos)





Mary Stuart, Conta de forma não linear os últimos dias da rainha Mary Stuart, que ficou presa por 40 anos e foi condenada à morte por sua prima Elizabeth.
A estrutura da peça a cria ponte com a história recente do Brasil explicitando o tema que provocou a montagem: Como o poder está presente e opera na vida do individuo.

Com uma precisão necessária para que possa acontecer e que me chamou muito atenção, a palavra o gesto a cadeira (que é o único objeto de cena) mais os recursos de luz e som são precisamente manipulados privilegiando o jogo e o envolvimento com o espectador. Outra coisa que é interessante na montagem é uso da metalinguagem que fortalece o jogo com o espectador.

Aliás, a reação que o espetáculo causa no espectador é algo que deve ser lembrado pq fazia tempo que não via o publico tão envolvido no espetáculo a ponto de reagir a determinadas cenas com aplausos quase catárticos.

Serviço:
Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h - Ingressos: R$20,00 (retirada de ingressos: duas horas antes de cada sessão) - preço popular (retirada de apenas um ingresso por pessoa): todos os dias para 20% da lotação da sala (R$ 2,55) mediante a apresentação da Carteira de Baixa Renda e RG, conforme lei nº 11.357/93 - Espaço Cênico Ademar Guerra (200 lugares)